No fundo do poço, a Argentina, que um dia já foi um dos países mais ricos do mundo e hoje vê a pobreza atingir quase metade de sua população, está tentando reeditar o Pacto de Moncloa espanhol. A ideia foi aventada pelo ex-presidente peronista Eduardo Duhalde. Nesta semana, o jornal La Nación traz uma série de artigos discutindo o tema.
O raciocínio é simples, mas a tarefa é de Hercules, sobretudo porque se trata da Argentina. O Pacto de Moncloa (ou Pactos de La Moncloa) foi uma série de acordos assinados em 1977 na Espanha pelos líderes dos principais partidos políticos, representantes do empresariado, dos sindicatos e da sociedade civil. A Espanha havia acabado de sair das garras do ditador Francisco Franco (morto em 1975), era um país pobre, com inflação de 40% ao mês, e continuava a ser uma sociedade dividida (na mesma linha dos republicanos e nacionalistas da Guerra Civil Espanhola).

Nos pactos assinados no Palácio de la Moncloa, todos tiveram de fazer concessões: os socialistas (liderados pelo depois premiê Felipe Gonzalez) tiveram de aceitar a monarquia do rei Juan Carlos. Os franquistas se resignaram com a volta do Partido Comunista à cena. Empresários e trabalhadores também cederam. Restou o consenso em torno de uma série de políticas públicas que se tornaram políticas de Estado nos anos seguintes, levantando a Espanha.
Na Argentina, o cenário é algo parecido ao da Espanha no fim dos anos 1970. O país tem uma economia sofrível e uma sociedade dividida (não em dois grandes grupos como na Espanha, mas em milhares de egos políticos). O principal problema é que os argentinos não conseguem fazer consenso. Mesmo quando há políticas do interesse geral dos argentinos, os políticos simplesmente entram em atrito por uma ou outra declaração rançosa de outro líder. E o que deveria ser uma discussão de interesses públicos vira uma guerra de egos, na qual o oponente não se contenta enquanto não destruir o outro. Não se pensa muito em deslocar um multidão para a Casa Rosada, para desestabilizar o governo de plantão. E o próprio governo se defende com táticas de guerra.
Basta ver a crise da papeleira Botnia, no Uruguai, na fronteira com a Argentina. Há cerca de três anos a ponte que liga os dois países na cidade de Gualeguaychu está fechada por piquetes. Os uruguaios já disseram que não poluem o rio, o governo argentino não aceitou muito bem a explicação mas deu a questão algo como encerrada. Mesmo assim, o piqueteiros liderados por De Angeli (que também liderou as manifestações do campo) parecem dispostos a morrer na fronteira, até que a papeleira Botnia seja implodida, algo que nunca vai ocorrer. Logo, a causa que era nobre (a ecologia, etc) se tornou uma causa quixotesca, estúpida, que só divide a sociedade e interfere nas relações entre os dois países.
O mesmo ocorreu na crise do campo. Os ruralistas (com suas razões) começaram a fechar as estradas no ano passado, em protesto contra a alta de impostos de exportação. O governo, ao invés de procurar diálogo, passou a tratar os ruralistas como golpistas, inimigos a serem trucidados. Logo, a questão dos impostos se tornou secundária e o que valia, realmente, era acabar uns com os outros, com muito ódio, tragédia, tango e tudo o que bem típico da Argentina. No final das contas, perderam os dois lados. E perdeu a Argentina. Vai ser dificil a caudilhada chegar no meio termo...
Se há algo de comum entre o retirante e ex-metalúrgico Lula e o descendente de húngaros e judeus Nicolas Sarkozy é a esperteza. Polêmicas à parte, com a origem familiar que têm, apenas porque são espertos os dois chegaram à presidência do Brasil e da França.
Neste 7 de setembro, Lula fechou um acordo histórico e bilionário com a França, que coloca o Brasil no seleto grupo de países que têm tecnologia e submarinos nucleares. O país acaba de definir as regras de exploração do petróleo do pré-sal e agora tem um pote de outro para tomar conta. O acordo militar de € 8 bilhões (R$ 21,1 bilhões) é o mais importante desde o pacto brasileiro com os aliados durante a Segunda Guerra e representa mais que meros interesses de defesa.

Brasil e França dão as mãos para entrar na nova ordem pós-crise: Os brasileiros se armam para defender sua riqueza e escolhem o seu "amigo" entre os países influentes, aquele que pode recomendar a entrada do colega "novo rico" ao clube dos bacanas. Já os franceses escolhem o Brasil porque o país é aquele, do grupos dos "novo ricos", dos Bric, onde a França pode expandir sua influência com mais facilidade, num terreno já conhecido de velha data.
O Brasil é latino, ainda pensa que Paris é referência de moda e arte, não arma confusão e tem um monte de índio (francês adora um "bom selvagem", como aquele do Rousseau). Para fechar a equação, o Brasil agora tem dinheiro. Por isso, é uma plataforma e tanto para a expansão de negócios e investimentos franceses no mundo emergente.
No fim das contas, a França deu a mão ao Brasil para não perder mais poder (a influência francesa diminuiu no pós-guerra e será ainda menor). Já o Brasil segurou forte porque quer ter mais acesso ao poder, tanto que a França apoia a entrada do país no Conselho de Segurança da ONU. Lula e Sarkozy foram espertos ao perceber isso. O noivado está acertado.